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sábado, 8 de maio de 2021

É mais fácil cuidar de menino que menina (?!?!)

Eu ouvi muito isso quando Nícolas era novinho. A pessoa vinha perguntar se ele era menino ou menina, e quando ouvia a respota, dizia "ah, que bom, menino dá bem menos trabalho".

Acredito que a partir de determinada idade, criar um menino ou uma menina são realmente coisas diferentes. Isso porque a sociedade impõe papéis bem específicos para cada um dos sexos, e lidar com a desconstrução desses papéis exige ações diferentes. Então, por exemplo, há de se estar muito mais atento a questões associadas com alimentação saudável e magreza extrema quando se tem uma menina do que um menino, já que a cobrança que a menina irá sentir para que se adeque a padrões de beleza irreais, desde muito nova, é muito maior do que um menino. Da mesma forma, há de se estar muito mais atento a questões ligadas a violência e masculinidade tóxica quando se cria um menino, pois ele vai estar muito mais exposto a esse tipo de situação. Não sei dizer qual dos dois é mais difícil, mas certamente os desafios a serem enfrentados quando se está criando uma menina ou um menino são deiferentes.

Mas quando as pessoas fazem esse tipo de comentário, não estão se referindo a questões associadas a educação de crianças maiores ou adolescentes, e sim falando sobre criar bebês mesmo. Segundo a lógica, criar um bebê menino é muito mais fácil que uma bebê menina porque não exige lacinhos, babadinhos, vestidinhos, brinquinhos, perfuminhos e enfeitinhos diversos. E aí eu tenho que me controlar pra dar um sorrisinho amarelo e dizer "é mesmo, né?", quando na verdade minha vontade é dizer: "As necessidades de todos os bebês são exatamente as mesmas: leite e colo. Quem inventa que precisa super-caracterizar as bebês, de forma que elas fiquem quase imóveis com aquele tanto de babado e renda, a ponto de não sobrar dúvida alguma que se trata de uma menina, é que está criando trabalho para si próprio."

Não acho errado quem queira enfeitar suas bebês (desde que dentro de um limite que não se torne desconfortável ou até mesmo perigoso para ela). Mas de fato não é algo necessário. É algo que a pessoa deve fazer por prazer, se quiser fazer. Se não quiser, basta colocar uma fralda e uma roupinha simples, tal qual faria com um bebê menino, e está tudo certo.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O menino que gosta de sereias


Vi um dia desses uma matéria sobre "amor e superação de preconceito" de uma família. Se tratava de um garotinho que desde bem pequeno demonstrava que gostava de bonecas, princesas, sereias e outras "coisas de menina". Os pais diziam que antes não aceitavam, proibiam ele de brincar com os brinquedos de menina, mas depois resolveram apoiar o filho e permitir que ele fosse quem ele é de verdade... E aí a foto que ilustra a matéria é o garoto super feliz vestido com uma fantasia de sereia e abraçando uma boneca, como se isso fosse a prova que o amor da família venceu a "anomalia" que aquele garotinho representa...

Poderia ser uma história bonita, se não fosse cheia de erros potencialmente perigosos. Me explico: O grande erro dessa história é associar bonecas, princesas e sereias a "coisas de menina". Essa divisão entre "coisas de menina" e "coisas de menino" não é uma separação natural, e sim construção social, os ditos "papéis de gênero". Não existe nenhuma razão biológica para dizer que "meninas gostam de sereias" e "meninos gostam de dinossauros". Isso é uma criação da nossa sociedade, na expectativa de padronizar comportamentos, onde meninas (e mulheres) são "românticas, graciosas, delicadas e fúteis"  enquanto meninos (e homens) são "insensíveis, fortes, corajosos e rudes". 

Existem pessoas que, por mera coincidência, se encaixam perfeitamente a esses papéis, fazendo-os parecerem naturais. Algumas pessoas ficam só um pouquinho de fora e então com um pequeno esforço se adequam à "forma perfeita", e suas "imperfeições" nem são notadas. Outras extrapolam um pouquinho mais, e acabam sendo consideradas apenas "diferentes", sem que isso represente um problema (como a mulher excêntrica que prefere assistir futebol a fazer compras, ou o homem excêntrico que prefere olhar as estrelas a tomar cerveja). Mas existem pessoas que simplesmente são tão diferentes desses papéis de gênero impostos, que qualquer um que olhe pode notar... É o caso do menino da reportagem, que ao invés de gostar de lutas e carros, prefere ouvir histórias de princesas e se vestir de sereia...

E o grande perigo de toda essa história é que, por não se sentir encaixado ao papel falacioso do que é "ser um menino", esse garoto comece a suspeitar que talvez ele não seja um menino, e sim uma menina. E comece a acreditar que existe algo de errado com ele. E comece a odiar seu corpo. E comece a tomar hormônios e a se mutilar, na tentativa insana de, uma vez que não consegue mudar seu comportamento para se encaixar ao papel do que é "ser um menino", mudar seu corpo para se encaixar ao papel do que é "ser uma menina", e finalmente se sentir pertencente a essa sociedade sexista binária. 

Existem tantas famílias atualmente sendo enganadas por essa lorota de "papéis de gênero", acreditando que suas crianças são "defeituosas" porque não atendem às expectativas da sociedade sobre seu gênero, quando, na realidade, suas crianças são perfeitas, e as expectativas é que são defeituosas. 

Se eu pudesse falar algo para esse menino que gosta de sereias, seria: "Querido menino que gosta de sereias: sereias são maravilhosas!! São seres incríveis com uma vida incrível, e eu também as adoro. Não existe absolutamente nada de errado em gostar de sereias, em gostar de bonecas, em gostar de princesas. Cada pessoa é única, e essa é a beleza da vida. Alguns meninos gostam de dinossauros, outros gostam de sereias, outros gostam de carros, outros gostam de gatinhos. Alguns gostam de brincar de futebol, outros preferem pular corda, outros gostam de vídeo-game e outros gostam de bonecas. E não existe nada de errado com nenhum deles. Todos são meninos absolutamente normais e absolutamente perfeitos. Você é um menino lindo e perfeito. Nunca deixe que alguém diga que existe algo de errado com você porque você gosta de sereias; errado está quem acha que pode condenar a sua forma de ver a vida, a sua forma de sentir o mundo, os seus gostos e seu jeito. Seu corpo é sua casa, é seu templo, é o que te permite viver e experimentar o mundo, e é igualmente perfeito. Em algum momento podem aparecer pessoas querendo te "ajudar", te dando a entender que seu corpo tem alguma falha, e oferecendo remédios e cirurgias para consertá-lo. Não dê ouvidos a elas. Seu corpo não tem nenhum problema. Gostar de sereias não é sintoma de nenhuma doença, não é sinal de nenhum defeito. Se ame, acima de tudo. E siga sonhando e brincando com sereias, menino perfeito.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Semana Mundial do Aleitamento Materno


Estou sem muito tempo para postar, mas quis passar aqui para não deixar essa Semana Mundial do Aleitamento Materno passar em branco.
Amamentação não se restringe unicamente a nutrição; é também sobre amor, aconchego, segurança, carinho, cumplicidade. Amo esses momentos tão únicos e tão nossos.



sexta-feira, 5 de junho de 2020

Brinquedos que valem a pena - parte 2


Continuando a reflexão iniciada aqui, o segundo caso que eu acho interessante adquirir brinquedos é quando ele serve para estimular ou reforçar valores que deseja-se que a criança adquira.

Como é bem sabido, na nossa sociedade existe um apelo muito forte para a separação de atividades entre "masculinas" e "femininas". E essa divisão começa a ser ensinada desde cedo para as crianças, na inocente forma de brinquedos.
Meninas brincam com bonecas e eletrodomésticos, em uma clara mensagem que é exclusivamente delas a responsabilidade de cuidar das crianças e da manutenção da casa. Enquanto isso, meninos se mantém alheios a essas atividades, e brincam somente com carrinhos, bolas, ferramentas...
Acho importantíssimo quebrar esse padrão, então busco sempre mostrar para o meu menininho que ele não precisa se limitar a uma gama de cores e objetos por ser um menino. E uso brinquedos para reforçar isso.

O primeiro brinquedo que dei a ele com esse objetivo foi uma pelúcia da pantera-cor-de-rosa, para que ele tenha um exemplo claro, todos os dias, que rosa não é uma cor exclusivamente de meninas.
Também, ele ganhou o conjunto de vassourinha e rodinho dos meus pais, e eu acheimaravilhoso. Da mesma forma que ele vê o pai varrendo e limpando o chão (e não passa a ser "menos homem" por isso), também ele vai ter oportunidade de realizar esse tipo de atividade, de maneira lúdica. Enquanto brinca, ele vai reforçando nele mesmo a ideia que cuidar da higiene do local onde se vive é obrigação de todos, independente do sexo.
E, por fim, comprei uma bonequinha linda para ele, mas que ainda não chegou (comprei no Mercado Livre e vamos receber em casa). Na realidade é um conjunto de 3 bonequinhas "trigêmeas" negras, que comprei junto da mãe da minha afilhada mais velha. O Nícolas vai ficar com uma bonequinha, e cada uma das minhas afilhadas vai ficar com uma das outras duas.

Adorei a bonequinha, porque além de ensinar pra ele que homem é, sim, responsável pelos cuidados com os bebês (talvez algum dia ele seja pai, e vai ser ótimo ele ter essa noção), também vai servir como uma ferramenta contra o racismo.
Na minha época praticamente só víamos bonecas loiras dos olhos azuis. As raras bonecas negras que existiam, costumavam ser bem feias. Talvez Certamente daí que vem essa ideia torta que bebês bonitos são do esteriótipo "bebês Johnson": brancos, loiros, de olhos claros. Ter uma bonequinha linda, negra e com cachinhos encantadores vai ajudá-lo a perceber que a beleza pode se apresentar com diversas formas e cores.

domingo, 31 de maio de 2020

Outra vez a heteronormatividade


Hoje, navegando pela internet, fui positivamente surpreendida com a notícia que a Pixar lançou seu primeiro curta-metragem com protagonista homossexual. Sempre nesse tipo de notícia não faltam comentários retrógrados ao extremo, tratando homossexualidade como uma doença altamente contagiosa. Isso já é de praxe e nem me indigna mais; numa sociedade altamente machista e homofóbica como a nossa, infelizmente é isso que pode-se esperar (mas sou otimista e acredito que o mundo esteja evoluindo nesse sentido, ainda que a passos de tartaruga).

Mas o que mais me chamou a atenção foi o teor da maioria dos comentários considerados positivos. Já repararam como sempre em materiais voltados para o público infantil que tratam sobre homossexualidade, os comentários positivos geralmente são pais dizendo algo do tipo: "Que legal! Meu filho vai assistir pra aprender a respeitar o diferente!" ?
Essa fala parece bacana, mas é altamente heteronormativa e também carregada de homofobia. Por que o gay é considerado "o diferente"? E por que esses pais tem tanta certeza que seus filhos serão os que irão respeitar os gays, e não eles mesmo serão os gays? E se os seus filhos forem "os diferentes" a serem respeitados? Será que esses pais não vislumbram essa ideia? Será que ao ouvirem isso, se chocariam? Se ofenderiam? Se sim, isso também seria homofobia...

Eu não sei a orientação sexual do Nícolas. Nem ele mesmo sabe. Vamos descobrir juntos ao longo dos próximos 10, 12 ou 14 anos... Por isso mesmo não posso partir do pré-suposto que ele é heterossexual, em nenhum contexto.
Considero que para seu desenvolvimento completo como pessoa, é muito importante que ele seja exposto a situações e materiais (adequados à sua faixa etária, obviamente) que apresentem a homossexualidade como algo natural e corriqueiro, como realmente é, assim como a heterossexualidade.
Assim, caso daqui a uns anos ele se descubra heterossexual (essa é uma possibilidade, não um fato certo), ele vai entender que não é melhor que ninguém por isso, e vai saber respeitar seus "diferentes".
E caso ele se descubra homossexual (o que também é uma possibilidade, e não seria problema nenhum para nossa família), ele vai entender que não é pior que ninguém por isso, e não vai aceitar nada menos que respeito de seus "diferentes".

Trailer da animação Out: https://www.youtube.com/watch?v=GOkZfvl7PBQ

sábado, 30 de maio de 2020

Fraldas "de menina": As amarras que o machismo insere em nossas vidas


Como eu relatei, fizemos questão de montar o enxoval sem sabermos o sexo do nosso bebê. E, não, não compramos tudo "amarelinho" ou com "cores neutras"; compramos tudo colorido, justamente por não acreditarmos que existe "cor de menina", "cor de menino" e "cor neutra". Cores são cores, e não tem nada a ver com sexo de alguém. Então tínhamos objetos de todas as cores, inclusive azul e rosa. Quando descobrimos que teríamos um menininho, isso não significou nenhum problema para nós. Usamos tudo o que havíamos comprado, e ele inclusive herdou algumas roupinhas rosas da priminha 4 meses mais velha, sem problema algum. E ele nunca deixou de ser um garotinho por causa disso.

Quando fui montar o enxoval de fraldinhas ecológicas, comprei inicialmente 17 fraldas AIO, também de cores e estampas variadas. Como contei aqui, após vários meses de uso as fraldas começaram a ficar com um odor ruim, e para tentar melhorar isso fiz uma lavagem com bicarbonato de sódio. Como consequência, estraguei a parte impermeável dessas fraldas e isso afetou substancialmente o bom funcionamento delas; ainda podíamos usar, mas após 2 ou no máximo 3 horas de uso elas vazavam. Como já havíamos adquirido outras, aposentamos essas fraldas avariadas. 
Guardei elas por um tempo, sem saber o que fazer exatamente; não queria simplesmente jogar no lixo, pois elas não estavam completamente inservíveis. Talvez pudessem ser consertadas ou talvez pudessem ser úteis dessa forma mesmo para alguém que precisasse muito...

E foi exatamente o que aconteceu. Em um grupo que eu participo do What'sapp sobre fraldas de pano, uma moça estava pedindo ajuda para uns conhecidos dela. Se tratava de uma família muito humilde que tinha um bebê de 4 meses de idade e estavam passando por dificuldades financeiras, sem poder comprar fraldas. Segundo essa moça relatou, o pai da criança lavava no tanque e colocava pra secar as fraldas descartáveis para poder reaproveitá-las, por não terem condições de comprar novas. Pensei então que, apesar de não estarem perfeitas, essas minhas 17 fraldas AIO poderiam ser úteis para essa família. Eles poderiam utilizá-las somente durante o dia, tomando o cuidado de fazer trocas frequentes, e deixar para utilizar descartáveis somente na parte da noite. Com 17 fraldas, seria possível trocar o bebê a cada 2 horas durante o dia e lavar as fraldas sujas a cada 2 dias. Com certeza seria muito melhor do que continuar usando fraldas descartáveis reaproveitadas.
Entrei em contato com a pessoa que relatou sobre essa família e enviei as fraldas pelos correios para ela. Quando as fraldas chegaram, ela disse que a mãe do bebê até chorou de emoção. Me mandou foto do bebezinho usando uma das fraldas e disse que estavam funcionando bastante bem durante o dia.
Mas depois de alguns dias, para minha grande surpresa, essa pessoa me disse que os pais iriam doar metade das fraldas. Perguntei pra ela o motivo, já que o número de fraldas que eu dei para eles não era tão alto assim, ainda mais porque a duração delas estava comprometida e as trocas tinham que ser feitas frequentemente. E, para meu espanto, ela me disse que eles iriam doar as que eram "de menina" porque o filho deles é menino!!!

Isso pra mim foi como um soco no estômago... Não por estar triste por ela não utilizar todas as fraldas que eu dei (de forma alguma me senti ofendida por isso), mas por perceber como o machismo pode ser realmente um entrave na vida das pessoas... Uma família necessitada preferiu continuar passando dificuldade somente para se adequar a uma regra totalmente sem sentido de que "meninos não podem utilizar roupas/fraldas/sapatos/brinquedos cor-de-rosa". Uma pena pensar que ideias tão retrógradas ainda são levadas tão a sério a ponto de prejudicar a vida das pessoas. 

Essas são as fraldas AIO que eu doei, algumas delas consideradas "inservíveis" para um menino, por serem de "estampas femininas":

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Dia das Mães e a violência contra as crianças


Ontem comemoramos o Dia das Mães. Como já vem acontecendo há alguns anos, além de ser somente um dia para dar e receber presentes e felicitações, a data também é um dia para nos trazer questionamentos e debates interessantes sobre a maternidade, desde a sua glamourização, sua quase obrigatoriedade para mulheres, culpa materna, as diferenças entre as cargas de mães e pais, e toda uma série de temas super válidos e necessários na nossa sociedade machista, que ainda insiste em colocar quase todo peso da criação das crianças no ombro das mulheres, enquanto os homens são aplaudidos como super-pais quando fazem o mínimo que qualquer pai deveria fazer.

Mas, sem querer desmerecer essas pautas, o que mais me chamou a atenção ontem foi outro tema, de suma importância, mas ainda negligenciado em quase todos os espaços (inclusive feministas): Violência Contra as Crianças.
Recebi um sem-número de mensagens me felicitando por ser mãe, e em várias delas a violência contra crianças foi apresentada como piada. Exemplo disso foi uma mensagem que recebi com a foto de um par de chinelos havaianas, com os dizeres “Feliz dia das mães!!! Uma homenagem das Havaianas. Há mais de 80 anos ajudando na educação dos seus filhos”, em uma menção clara às chineladas que a grande maioria das crianças já levou, a título de “corretivo”.
Certamente essa mensagem não partiu da marca Havaianas – foi alguém que, querendo ser “engraçado”, criou a figurinha. Recebi outras também, fazendo menção a algumas falas comuns de mães, como “Se eu for aí e achar, esfrego na sua cara”, ou “Se eu ouvir um pio, quebro seus dentes”, dentre muitas outras… 

Eu, sinceramente, não vejo graça alguma nesse tipo de piada. Violência não é engraçado. Violência contra crianças, menos ainda.
Infelizmente, sei que essas atitudes vão além das piadas. A grande maioria das crianças realmente passa por algum tipo de violência, seja verbal ou física, ainda hoje. E uma grande parte dos cuidadores que impõem violência à criança, acham que estão fazendo bem para ela; muitos adultos realmente acreditam que a agressão é necessária para se educar e disciplinar. Não conseguem vislumbrar uma maneira de dialogar com uma criança com empatia e respeito, sem ter que lançar mão de violência e medo.
E isso, pra mim, diz muito sobre esse adulto, e que tipo de infância ele teve. A crença de que é necessário violência para ensinar, certamente é reflexo da educação que essa pessoa teve – também cheia de violência e agressões.
Acho que algumas pessoas realmente não conseguem se libertar das ideias equivocadas que lhes foram transmitidas, e outros simplesmente se recusam a pensar nesse assunto, pois isso faria surgir muitos fantasmas do passado.

Quanto a mim, faço questão de olhar com olhos muito críticos a tudo o que aconteceu na minha infância, de maneira a escolher a dedo o que vou replicar na educação que vou dar ao(s) meu(s) filho(s), e o que vou descartar. Como a maioria esmagadora dos da minha geração, também sofri agressões físicas e verbais – todos naquele pacote de “bem intencionados”, com uma embalagem bonita de “estamos fazendo isso para te educar e te transformar em um ser-humano melhor”. Nunca apanhei de forma desproporcional, nunca fiquei com edemas ou cicatrizes, mas as chineladas que eu tomei (foram muitas), se não me marcaram fisicamente, deixaram marcas psicológicas. E posso garantir que nunca serviram para me fazer refletir sobre minhas atitudes "erradas" – quando tomava chineladas, a única coisa que eu nutria era medo e ódio. Nada de bom surgia no meu coração ou pensamentos.
Hoje não carrego mágoa alguma dos meus pais. Sei que sempre me amaram irrestritamente, e que me educaram da maneira que realmente acreditavam ser a melhor, tomando como base a própria educação que tiveram. Mas nem por isso vou aprovar e replicar o que acho que não foi apropriado.
Se  tem algo que eu posso afirmar com certeza absoluta, é que nunca vou levantar a mão (e espero que nem a voz) para o meu menino. E nunca vou permitir que ninguém o faça. Isso é absolutamente contra tudo o que acredito. Se eu quero ensinar meu filho a respeitar as pessoas, tenho que dar o exemplo primeiro, e certamente agredi-lo física e/ou psicologicamente não é um bom exemplo de como se respeitar uma pessoa.

Torço para que cada vez mais mães (e pais e cuidadores em geral) façam esse tipo de crítica. E que os próximos dias das mães sejam cheios de mensagens que transbordem amor, no lugar de piadas de violência

quinta-feira, 26 de março de 2020

Iniciando o Desmame


Já falei anteriormente que eu amo amamentar!! Tivemos alguma dificuldade no começo, mas após vencidos os primeiros obstáculos, a amamentação fluiu super bem para Nícolas e eu, e realmente acho as horas que ele passa mamando um momento muito gostoso que dividimos, de carinho e cumplicidade.
Mas algumas vezes a amamentação não está mais sendo tão prazerosa quanto já foi em outros tempos, e não sinto nenhuma culpa em admitir isso.

Sei que o leite humano é o melhor alimento, incomparavelmente, pro bebê humano. E sei também que a amamentação vai muito além de simplesmente fornecer nutrientes pro bebê. Além da parte nutricional, o contato corpo a corpo da mãe com o bebê é essencial pra formação de vínculos, e pro crescimento psicológico saudável dele. Sou uma defensora ferrenha da amamentação, e nunca estimularia nenhuma mulher a desmamar seu bebê antes da hora...
Mas, por outro lado, também sou uma defensora ferrenha dos direitos das mulheres decidirem sobre suas vidas e seus corpos. Acredito piamente que a amamentação é uma relação entre duas pessoas (mãe e bebê), e como tal, tem que ser boa e prazerosa pros dois envolvidos. Não acho correto, de maneira nenhuma, pessoas que afirmam que a mãe tem que se sacrificar ao extremo, e aguentar toda dor (seja física ou psicológica) só pra amamentar... As fórmulas infantis existem justamente para os casos em que a amamentação não foi possível, ou para os casos em que a mulher simplesmente decidiu que não queria amamentar (sim, é direito da mulher, e ela não é uma péssima mãe por isso)!!

No meu caso, são dois os aspectos que começaram a me incomodar a respeito da amamentação:
O primeiro deles, é que em alguns momentos estou sentindo dor ao amamentar. Não sei exatamente se o Nícolas começou a fazer a pega de maneira errada novamente (suspeito que sim), se algumas vezes ele sente muita fome, e por isso suga com muito mais força (geralmente sinto dor nas mamadas da madrugada), se é por causa dos dentes que nasceram, ou uma junção de tudo isso. Estou tentando reajustar a pega, usando a mesma técnica que me ensinaram no Banco de Leite, quando ele era recém-nascido. Acho que está surtindo algum efeito, mas ainda é cedo pra afirmar...
E a segunda situação é o fato de eu me sentir "presa" pelo fato do Nícolas mamar durante a noite (e não conseguir se acalmar e pegar no sono novamente até que eu o amamente)... Já houve 2 oportunidades em que eu saí de noite sem ele - a primeira em uma festa que e eu fui com minha enteada mais velha, e a segunda, no aniversário de uma tia, que fui com minha irmã e minha enteada mais nova. Em ambas as ocasiões, fiquei super pouco tempo, e enquanto estava lá fiquei o tempo todo pensando que a qualquer momento o Nícolas poderia acordar e começar a chorar querendo mamar... Ao invés de aproveitar as festas, fiquei o tempo inteiro olhando para o celular, aguardando alguma ligação desesperada do meu marido dizendo que ele havia acordado e queria mamar.

De toda forma, quando eu falo que estou iniciando o desmame, não estou esperando que ele largue o peito do dia pra noite, nem estou fazendo aquele processo mais "comum" e doloroso, que consiste em deixar a criança chorar querendo mamar e tendo seu pedido negado, até finalmente se conformar que acabou (o que costuma acontecer depois de alguns dias ou semanas)...
Ao contrário disso, estou começando a guiar o desmame, tomando atitudes pequenas, para que ele ocorra de maneira lenta, suave e progressiva, de forma que o Nícolas esteja psicologicamente preparado para parar de mamar quando eu decidir que chegou a hora (o que não acredito nem quero que aconteça antes dos próximos seis meses - quando então ele fará 2 anos de idade).

Em termos práticos, o que comecei a fazer agora é tirar do peito o papel de "ferramenta para acalmar". Quando o Nícolas cai e se machuca, por exemplo, em vez de oferecer o seio para acalmar o choro, eu pego ele no colo, faço carinho, dou beijinhos, mas não ofereço o seio. Algumas vezes ele coloca a mão no meu seio enquanto chora, e eu deixo, mas continuo sem oferecer. Somente quando ele pede mesmo, durante algum tempo, é que eu deixo ele mamar pra se acalmar -  acontece quando ele se machuca um pouco mais sério, ou se assusta muito, como um dia desses em que ele estava escalando seu carrinho, e o carrinho virou, Nícolas caiu de cabeça direto no chão, e o carrinho ainda caiu por cima dele... :(

Quando ele já estiver bem acostumado a não usar mais o seio como forma de se acalmar/consolar, aí pretendo tirar também do seio a função de adormecer... Na creche ele já se dirige sozinho para seu colchãozinho, quando sente sono, e dorme. Em casa, quando está sozinho com o pai, também acontece. Mas se eu estou em casa, raramente ele dorme se não for mamando. Pretendo ir também aos poucos tirando esse hábito dele, de forma que ele se acostume a dormir de alguma outra forma, que não mamando (talvez ouvindo uma historinha, ou uma musiquinha).

Acredito que quando isso acontecer e o seio deixar de ser uma ferramenta para outra finalidade que não nutrir, o desmame vai acontecer de maneira muito mais fácil e sem sofrimento. Porque, nesse caso, eu estarei tirando dele somente uma forma de se alimentar, e posso dar outra em substituição (até mesmo uma mamadeira), mas ele não vai ter dificuldades para suprir outras necessidades, como se acalmar e dormir.

Mas após citar algumas vantagens em deixar de amamentar, não posso deixar de citar vantagens que vejo em amamentar.
Primeiro, é muito tranquilizante para mim ter a opção de amamentar quando ele está doentinho e sem apetite. Além de nutrir, o leite também hidrata, então mesmo quando ele está indisposto e não aceita comer ou beber nada, o fato de estar mamando já me deixa muito menos preocupada com uma possível desidratação ou desnutrição.
Segundo, amamentar é muito prático. Quando vamos sair, não tenho que ficar me preocupando em levar lanchinhos para o Nícolas. Se por algum motivo o lugar onde formos não tiver nenhuma opção pra ele comer e bater a fome, basta eu dar o peito. Claro que essa não é uma solução para todos os dias (uma vez que, após 1 ano de idade, o leite humano é somente um complemento, e não mais a refeição principal da criança), mas para de vez em quando quebra um galho muito grande, sim.
E, por último, mas não menos importante, é a questão do carinho trocado durante a amamentação. Uma das coisas que mais gosto de fazer é me sentar na cadeira de balanço e assistir a um filme, enquanto ele mama e dorme no meu colo. E sei que ele também adora esses momentos em que fica adormecido "chupetando" meu seio, e se sentindo acolhido e amado. É um momento simplesmente maravilhoso, e tenho certeza que vou (vamos) sentir muita falta disso quando essa etapa nas nossas vidas passar.

Mas, uma vez que é inevitável que o desmame aconteça, estou bem segura que ir conduzindo de forma gradual e gentil, preparando meu garotinho (e a mim também) para essa ruptura em nossas vidas, é a melhor maneira de fazê-lo.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Emagrecimento pós-parto

Como relatei aqui, não sou muito vaidosa, mas os quilinhos a mais me incomodam. Então fiquei muito feliz quando, nessa semana, me pesei e constatei que consegui voltar ao meu peso original, de antes de engravidar.
Ao todo, engordei 19 quilos na minha gestação (fui de 62kg para 81kg). Nos primeiros meses após o nascimento do Nícolas, não fiquei controlando meu peso (essa era a menor das minhas preocupações; meu pensamento estava todo voltado para os cuidados com o bebê). Aos 6 meses, voltei a trabalhar, e aí sim percebi que eu estava 9kg acima de quando engravidei (ou seja, havia perdido 10kg durante os 6 primeiros meses após o parto). Como no meu trabalho fazemos corridas obrigatórias, não me preocupei tanto assim - sabia que mais dia, menos dia, eu iria emagrecer. E assim foi. Fui emagrecendo ao longo desses 11 meses desde que voltei a trabalhar, e enfim agora, 1 ano e 5 meses após meu parto, consegui voltar ao meu peso original.
Claro que meu corpo nunca mais será o mesmo, principalmente os seios, acredito. Mas não sou e nem vou ficar neurótica com isso - qualquer marca que meu corpo carregue é um sinal de que eu fui mãe, e isso pra mim é algo para sentir orgulho, e não vergonha.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Esqueletos de carnaval



Carnaval chegando, e eis que me deparo em um grupo de venda de produtos para bebês e crianças do whatsapp (participo de vários, mas não compro nada nunca... hehehe) com duas fantasias bastante interessantes: Fantasia de esqueleto de meninOs, e fantasia de esqueleto de meninAs...

Até então, eu poderia jurar que os esqueletos eram iguais (ou pelo menos parecidos a ponto de um olhar leigo não notar diferenças). Mas hoje finalmente aprendi que esqueletos femininos são rosinhas e a junção do fêmur com a bacia é em formato de coração... (modo irônico ativado)

Sério mesmo, tem necessidade disso?? É tanta forçação de barra com essa questão de "coisas de meninas" x "coisas de meninos", que chegamos a situações realmente ridículas... Eis as fantasias:


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Novamente sobre Azul e Rosa


Já falei anteriormente como acho nocivo e limitante pra criança essa questão dos papéis de gênero impostos pela sociedade. E isso é bem materializado na questão rosa x azul. Quem foi que disse que menino TEM QUE gostar de azul, e menina TEM QUE gostar de rosa??
Sem me alongar demais nessa discussão (em algum outro post me alongo), não é que uma pessoa, durante a festinha de aniversário do Nícolas, veio comentar com meu marido sobre "ainda bem que não somos desses pais de hoje em dia que gostam de ver meninos de rosa, e fizemos uma festinha toda azul, como devem ser as festinhas de meninos"??  Eu mereço mesmo...
Certo que essa pessoa não nos conhecia, pois se nos conhecesse minimamente, saberia que somos totalmente os pais que vestem o bebê menino de rosa (e de laranja, vermelho, azul, verde, branco, preto, cor-de-burro-quando-foge, etc...) sem nenhum problema!! E achamos simplesmente patético quem acredita que a cor da roupa vai definir alguma coisa na personalidade da criança, ou nos seus gostos e/ou preferências sexuais...
E, de fato, a pessoa que fez esse comentário era realmente a única pessoa ali que não foi convidada pra festa (era "amigo" de uma amiga - ela sim, convidada - que por sinal nem havia me avisado que levaria um acompanhante). A sorte (ou azar) é que ele resolveu fazer o comentário pro meu marido, que só respondeu com um sorriso amarelo, porque se fosse pra mim, ouviria algo em resposta (ok, eu não seria mal educada nem indelicada, mas não deixaria passar batido, com certeza)...

As coisas estão ficando tão doidas, que até quando eu fui numa loja olhar vasinhos pras mesas, tive que ouvir a atendente me falando que eu não deveria usar flores pra decorar a festa, e sim "buchinhos", mais apropriados pra uma festa de menino. Ok, buchinhos são bonitinhos, mas eu prefiro as flores, ora-bolas. O que tem de errado em meninos gostarem de flores?? Ou suas festinhas terem flores na decoração??

Então, pra deixar registrado, sim, a festinha do Nícolas foi nas cores azul, preto e branco. Mas isso não aconteceu porque ele é menino, e sim porque o tema escolhido foi "O Poderoso Chefinho", e essas são as cores do tema. Se fosse "Snoopy", como eu havia escolhido antes, as cores seriam vermelho, amarelo e preto, com uns toques de azul bebê, e se fosse qualquer outro tema, as cores da festa seguiriam o tema. Simples assim.

E só de birra e pra provar que não existe cor de menino e de menina, já escolhi o tema da festa de dois anos do Nícolas: A Pantera cor-de-rosa. :)



segunda-feira, 15 de julho de 2019

Heteronormatividade



Heteronormatividade é o senso comum que considera "normal" o heterossexualimo, e todas as outras orientações sexuais como "anormais". É algo tão corriqueiro no nosso dia a dia, que para pessoas héteros pode passar despercebido, embora seja forte e presente a todo momento. É quando, por exemplo, perguntamos para um menino se ele já tem namorada, sem que já saibamos com antecedência se ele é heterossexual ou não. Ou, em outras palavras, é considerarmos que todos são heterossexuais, a não ser que se prove (ou se diga) algo contrário.

Com o Nícolas, em seus poucos 10 meses de vida, já passamos por algumas situações assim. Como, por exemplo, no dia que dividi em um grupo de whatsapp uma foto dele brincando em um parquinho com uma menininha, e me perguntaram se ele estava "paquerando" a menina. Claro que não estava, ele é um bebê e nem tem ideia do que seja paquerar. E eu sei que a pessoa que fez a pergunta também tinha certeza que ele não estava paquerando, e fez somente de "brincadeirinha". 
Mas a questão é: se fosse um menino que estivesse brincando com o Nícolas, tenho certeza absoluta que a pessoa não faria a brincadeira, porque não passaria pela cabeça dela, em momento nenhum, que o Nícolas pudesse paquerar um menino, nunca! E aí está a heteronormatividade.

E por que isso é ruim? Porque, independente da orientação sexual dele, ser criado em um ambiente heteronormativo pode trazer consequências que não são bem-vindas. 
Caso ele seja heterossexual, crescer com a ideia de que o "normal" é ser hétero e todo resto é "anormal" pode despertar nele o sentimento de que heterossexuais são de alguma forma "superiores" aos demais, e ele se tornar uma pessoa homofóbica. 
E caso ele não seja heterossexual, pode fazer com que ele nutra de alguma forma um sentimento de que ele é uma decepção para a família, para os amigos, para o mundo, já que sempre foi "esperado" que ele fosse heterossexual...
E nenhum dos dois casos eu desejo pro meu menininho. Se ele se descobrir hétero, espero que saiba que isso é só mais uma característica dele, que não o torna superior a ninguém que seja diferente dele nesse aspecto. E se ele se descobrir com alguma outra orientação sexual que não hétero, espero que ele saiba que isso é só mais uma característica dele, que não o torna, de forma alguma, inferior a ninguém que seja diferente dele nesse aspecto.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Amamentar não é fácil MESMO - parte II



Eu já havia escrito um post anteriormente falando sobre como amamentar não é algo natural e instintivo, como eu imaginava que fosse, e contando das dificuldades que eu passei para conseguir finalmente amamentar meu bebê sem sofrimento.

Mas as dificuldades para amamentar não se limitam a questões físicas como a pega do bebê e a produção de leite pela mulher. Existe toda uma questão cultural envolvida, que, se por um lado sabemos todos que o leite materno é o melhor alimento pro bebê, e nos declaramos quase todos a favor da amamentação (eu mesma nunca conheci alguém que diga abertamente ser contra), por outro lado, existem barreiras invisíveis para uma mãe amamentar, em forma de julgamentos, comentários maldosos, ou até mesmo "dicas" para ajudar. Se a vontade da mulher amamentar não for realmente enorme, e se ela não estiver bem instruída sobre o que esperar da amamentação, pode acabar caindo em armadilhas e causar danos à amamentação, algumas vezes de forma irreversível...

Muitas vezes as dificuldades aparecem já na própria maternidade. É bem comum as próprias enfermeiras da maternidade indicarem o tal "bico intermediário", pra aliviarem o desconforto que pode surgir nos primeiros dias da amamentação. Ou então na própria maternidade já oferecem fórmula na mamadeira pro bebê, porque a mãe está com "pouco leite"* Ambos os casos são bem graves, e podem estragar toda a amamentação. Mesmo com um bebê que já tem a pega bem formada, pode acontecer a terrível confusão dos bicos (falei sobre ela aqui). Com um bebê que ainda está aprendendo a mamar e uma mãe que ainda está aprendendo a amamentar, então, isso pode ser ainda mais grave...
Isso não aconteceu comigo, pois a maternidade que escolhi para ter meu bebê tem uma visão muito lúcida a favor da amamentação, mas uma conhecida que teve bebê há poucas semanas, em uma maternidade de referência da minha cidade, já foi pra casa dando fórmula na mamadeira pra bebê, porque, segundo a maternidade "a mamãe não dá conta de alimentá-la como deveria, porque ela é muito gulosinha... que gracinha!!"

Mas se não enfrentei esse primeiro obstáculo, enfrentei outros, também muito frequentes:
Assim que cheguei em casa vinda da maternidade - com hormônios a mil, sentindo um desconforto enorme por causa da cirurgia, ainda em luto pelo parto que não foi como eu esperava, já sentindo dor ao amamentar, chorando de um lado e Nícolas chorando do outro - ouvi uma parente** me dizer que talvez o Nícolas tivesse chorando de fome, porque meu leite era fraco...
Depois, alguns dias adiante, ouvi outra parente** me insistir em dar uma "chuquinha" para ele, com chá de camomila e funchicória, para melhorar as cólicas...
Recentemente, uma terceira parente** me orientou a oferecer uma mamadeira pra ele com mingau de aveia, para que ele dormisse a noite toda e eu pudesse descansar...
E várias outras vezes também ouvi comentários do tipo "tem que deixar chorando um pouquinho pra acostumar", "não dá o peito, ele está com a barriga cheia, não está com fome", "ele já acabou de mamar, está só fazendo seu peito de chupeta, não deixa não, dá uma chupetinha pra ele"
Pra completar tudo, ouvi algumas vezes da própria pediatra (que, a princípio, deveria ser uma profissional super engajada com a amamentação) que ele não estaria engordando bem, e talvez fosse bom suplementar (sendo que ele sempre esteve na curva normal de crescimento, e é um bebê grande, gordinho e saudável); depois que eu deveria dar mais batata pra ele comer no fim de semana e menos peito (isso aos 7 meses, onde o leite ainda é - ou deveria ser - a principal fonte de nutrientes pro bebê); que durante a noite eu poderia pedir pro meu marido dar água pra ele, ao invés de eu dar peito; e que a partir dos 3 meses mamadeira e chupeta são liberadas, porque não causam mais a "confusão dos bicos".

Pra uma mãe que não sabe dos riscos que os bicos artificiais trazem para a amamentação, e da importância do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, em livre demanda, é muito tentador usar algum artifício que deixe o bebê mais tranquilo, e que faça com que ele durma mais tempo...
É óbvio que eu gostaria de poder dormir uma noite inteirinha, sem precisar acordar para amamentar. Mas, não, não troco por nada o prazer e cumplicidade que os momentos amamentando meu bebê nos proporciona (fora a importância para a saúde dele) por noite nenhuma. E assim como eu, várias mães também fariam essa escolha (sem julgamentos às que optam pela noite de sono - cada uma sabe do seu grau de cansaço e tolerância), mas muitas são enganadas pelas promessas das mamadeiras e chupetas, e acabam prejudicando a sua amamentação...

Das parentes, não guardo nenhum tipo de rancor pelas "dicas". São em geral pessoas mais velhas, que criaram seus filhos em um tempo que essa era a "receita" para criar bebês saudáveis, e só querem ajudar.
Mas da pediatra, julgo seu comportamento como no mínimo anti-profissional. Sabendo de todos os benefícios da amamentação, porque ela iria sugerir algo que pode interferir e prejudicar? Talvez seja muito ideia de "teoria da conspiração" imaginar que ela (e a maioria dos profissionais da área) tenha algum interesse em desmamar bebês, para fazer o capital girar, mas não penso em outra explicação lógica. Afinal, bebês que mamam no peito não geram lucro pro sistema. Bebês que gastam com fórmulas, mamadeiras, chupetas e todos os aparatos associados, sim!

Some-se a tudo isso um cenário em que muitas vezes a mãe recebe olhares tortos e até mesmo comentários maldosos quando está amamentando em público, e aquelas que mesmo assim insistem em amamentar podem ser consideradas guerreiras revolucionárias.






*A apojadura costuma acontecer de 3 a 5 dias após o bebê nascer. Por isso, o normal é que a mulher não esteja produzindo leite quando sai da maternidade, somente colostro. Os bebês nascidos a termo já estão preparados pra isso, e portanto sua necessidade nutricional nos primeiros 2 dias é ínfima. O normal é que o bebê perca peso nos primeiros dias mesmo, e sempre saia da maternidade mais leve do que quando nasceu. Portanto, não faz NENHUM sentido complementar bebês com fórmula na maternidade, salvo raros casos bem específicos.

** Não falei e nem vou falar quais foram as parentes que fizeram as indicações, pois não quero causar nenhum constrangimento ou discórdia, caso algum dia alguma delas leia esse post. Sei que as dicas foram todas dadas de coração, e imaginando que esse seria o melhor para mim e meu filho.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Dia da Mulher e Maternidade



Algo irônico no machismo é que ele é transmitido de geração em geração através das mulheres. Isso porque na nossa sociedade patriarcal, cabe exclusivamente à mulher os cuidados com as crianças, e portanto é ela quem tem acesso ao ser-humano na sua forma mais bruta e pura, e lapida sua mente da maneira que considera mais apropriada. No dia que as mulheres perceberem quão poderoso é seu papel na sociedade, o patriarcado terá seus dias contados.

Eu, por minha vez, já tenho noção e luto contra o machismo dentro de casa. Seria utópico afirmar que nossa casa é 100% blindada contra o machismo, mas tentamos (tanto eu quanto meu marido) verdadeiramente quebrar os padrões sexistas, e ambos nos empenhamos em cuidar da manutenção da casa, das finanças e da educação de nosso filho de maneira igualitária, como uma equipe, sem separação de "serviços de homem e serviços de mulher". Além disso, tento evitar ao máximo, desde sempre, piadinhas ou comentários machistas perto do Nícolas. Acredito que muitos preconceitos são perpetuados em forma de "brincadeirinhas inocentes".

No mais, vou sempre me empenhar para ensinar ao meu filho que ele, enquanto menino, não é melhor nem pior que nenhuma menina. Cada pessoa é única, com suas qualidades e fraquezas inatas, que em nada tem a ver com seu sexo biológico. Que não é vergonha, de forma alguma, perder, e que eventualmente ele encontrará meninas que serão melhores que ele em certas coisas, e que isso é normal. E que eventualmente ele também será melhor que algumas meninas em outras coisas, e que isso também é normal. Que a força física nunca deve ser empregada como forma de vencer uma discussão, e que usar da força bruta contra uma pessoa mais fraca não é sinal de coragem, e sim de covardia. Que todos merecemos respeito igualmente, enquanto seres-humanos, e também devemos respeito uns aos outros. E que esse respeito inclui também saber ouvir, aceitar e respeitar um "não".  Que brincar com os sentimentos alheios é uma das piores coisas que alguém pode fazer.
Também vou ensinar que ele, enquanto menino, tem sentimentos, e que falar sobre eles é algo positivo. Que ele também pode sentir medo, e isso não é sinal de fraqueza. Que demonstrar afeto é algo lindo. Que ele é responsável por manter a limpeza e arrumação de seus objetos e do local onde vive. Que ele deve procurar a profissão em que se sentir mais realizado, sem ligar para rótulos sexistas. Que ele pode, sim, sonhar em constituir uma família, se esse for o seu desejo, e que se um dia isso acontecer, seus filhos serão também sua responsabilidade, e que caberá a ele os cuidados com a higiene, alimentação e educação de suas crianças.

Cabe a nós, mães de hoje, ensinarmos novos valores aos homens e mulheres de amanhã. Cabe a nós educarmos homens que tratem as mulheres como elas merecem, e mulheres que não aceitem ser tratadas de forma diferente à que elas merecem. O caminho mais seguro para uma sociedade diferente é educarmos as crianças para fazerem a diferença.


Ps.: 8 de março não é dia de festa. É dia de luta e conscientização.

Fim da Licença Maternidade



E então passaram-se 180 dias do nascimento do meu garotinho. Sei que já falei isso algumas vezes, mas ainda não me cansei de repetir como o tempo tem passado voando...  Foram dias muito cansativos, mas muito, muito especiais, que ficarão guardados na minha lembrança pra sempre...

Antes do Nícolas nascer, eu me planejei para aproveitar os longos períodos de sono dele durante esses 6 meses para estudar francês, inglês, piano, organizar a papelada da casa... mal sabia eu que quase não sobraria tempo para pentear o cabelo e escovar os dentes... Eu realmente não esperava que cuidar de um bebê fosse tão trabalhoso e cansativo. Mas valeu cada segundo!! Cada momento que eu estive com meu bebê no colo, cada banho ou troca de fralda, cada sorrisinho que eu presenciei, cada choro que eu acalmei... eu não trocaria por nada nesse mundo! Foram simplesmente os dias mais maravilhosos e tumultuados que eu já vivi!

E agora encerramos um ciclo e começamos outro... Começaremos de uma maneira um pouco mais tensa do que eu imaginava, já que eu descobri somente HOJE que eu não tenho direito a férias (eu estava certa que teria direito a 30 dias de férias após a licença maternidade, os quais eu iria aproveitar para reforçar a introdução alimentar, e fazer uma calma adaptação na creche). Minha sorte é que meu futuro chefe foi bastante compreensivo, e entendeu o meu desespero diante desse susto, e me concedeu mais 8 dias antes de retornar ao trabalho. Então ao invés dos 30 dias que eu havia planejado, vou ter mais 7 dias (o primeiro dia já contou hoje) para adaptar meu bebê e a mim para essa separação que significará meu retorno ao trabalho... Segunda-feira iniciamos a adaptação na creche, e estou na expectativa que corra tudo bem, já que o Nícolas é um bebê super sociável...

No mais, estou com o coração partido de ter que ficar longe do meu bebê por tantas horas todos os dias... mas estou tentando me manter o mais calma e otimista possível, para passar para ele a tranquilidade necessária nessa primeira grande mudança na sua vida.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O meu parto



Mesmo antes de tomar a decisão de ser mãe, eu achava magnífico mulheres parindo sozinhas. Achava um ato tão natural e ao mesmo tempo tão empoderador. E era meu sonho, caso algum dia engravidasse, realizar meu próprio parto, sozinha, em casa, assim como a maioria das mamíferas não-humanas fazem. E na minha visão, quanto mais primitivo, melhor - no parto sozinha vejo a mulher se comportando como um animal selvagem com seus instintos à flor da pele; uma fêmea com dor, que procura sua toca escura, onde se recolhe, sozinha e em segredo, para se proteger e proteger seus futuros filhotes.
Quando me vi grávida, cheguei a cogitar essa ideia, mas não tive a coragem suficiente de seguir com essa decisão. Decidi então por um meio termo entre o parto totalmente auto-suficiente e o parto "linha de produção": contratei uma equipe (maravilhosa, diga-se de passagem) formada por duas enfermeiras e uma obstetra para realizar um parto humanizado. Primeiramente o objetivo seria realizar o parto domiciliar assistido, mas depois por medo do meu marido e alguns outros fatores, concordei em realizar o tão aguardado parto humanizado em uma maternidade que dá suporte a esse tipo "especial" de parto (que na realidade deveria ser o tipo "comum" de parto). E então fizemos as consultas, visitas, conversas, exercícios, e eu me preparei fisicamente, psicologicamente e espiritualmente para ter um lindo parto humanizado, com direito a tudo: sala escura, liberdade para me posicionar da maneira mais confortável pra mim, marido me dando suporte, equipe me respeitando, banheira, massagem, corte tardio do cordão umbilical, comer a placenta, etc...  Mas no fundo, eu ainda nutria um desejo secreto de que meu trabalho de parto fosse tão rápido, que eu acabasse parindo sozinha em casa, sem dar tempo de ser levada à maternidade.

Meu parto estava previsto para final de agosto (40 semanas completas em 29 de agosto), e como iria ocorrer uma mudança de lua no dia 26 de agosto, várias pessoas me disseram que era altamente provável que eu entraria em trabalho de parto nessa madrugada. Levei isso a sério, e criei tanta expectativa, que cheguei a ter certeza que a data seria essa mesma. Me programei pra isso. Mas esqueci de avisar pro neném... E ele decidiu que aquela não era a hora.
À medida que os dias iam passando e eu não entrava em trabalho de parto, minha ansiedade aumentava. Fiz muita caminhada, faxina, subi escada, etc... para tentar estimular o trabalho de parto, mas nada dava resultado. Meus sogros vieram pra cá dia 1 de setembro para conhecer o neto, e depois que eles chegaram, tive medo que ele não nascesse antes da data de retorno. Tivemos que trocar as passagens aéreas das minhas enteadas, que viriam conhecer o irmãozinho no feriado de 7 de setembro (que, no nosso entendimento, já teria nascido com certeza até esse dia). E embora ninguém estivesse me pressionando para parir logo, eu me sentia pressionada o tempo todo. Chorei muito de ansiedade, de medo, de raiva, de sei-lá-o-quê...

O combinado com a equipe de parto era: após as 40 semanas completas de gestação, faríamos consultas e exames com mais frequência e continuaríamos aguardando até as 42 semanas completas (o que seria dia 10 de setembro). Se até lá o bebê não tivesse nascido, iríamos induzir o parto. No dia 6 de setembro (uma quinta-feira) fizemos consulta com a obstetra, que solicitou alguns exames para acompanhar o bebê com mais cuidado.  Já que no dia 7 foi feriado e as clínicas não abriram, no dia 8 (sábado) pela manhã fomos fazer os exames, com plena convicção que estava tudo certo, já que o bebê estava se mexendo bastante dentro da barriga e com batimentos cardíacos normais. Mas infelizmente o resultado desses exames não foi conforme o esperado. Pelo relatado pela médica que os realizou, uma veia (ou artéria?) da cabecinha dele estava com mais pressão que o esperado, e havia muito pouco líquido amniótico. Mandei os resultados para a nossa obstetra, que então disse que não era mais seguro esperar: Nícolas deveria nascer ainda naquele dia. Ela me deu a opção de tentar induzir o parto normal, ou de partir direto para uma cesariana. Eu quis muito induzir o parto, pois eu queria demais viver a experiência daquele lindo parto humanizado tão sonhado, mas o elemento principal para meu parto fluir de maneira perfeita já havia ido embora: a confiança em mim mesma e na minha capacidade de parir meu filhote. Conversamos muito eu e marido, e decidimos então que no ponto que estávamos, o mais seguro para o nosso filho era uma cesariana. E como essa era a coisa mais importante naquele momento (garantir um parto seguro para ele), foi o que fizemos. Quando tomamos essa decisão, chorei por horas seguidas, sem parar. Tive que esperar 8 horas em jejum para realizar a cirurgia, e nessas 8 horas chorei quase ininterruptamente. Não era um choro de medo ou de preocupação. Era um choro de tristeza. Tristeza por ter chegado tão perto de realizar um sonho, e ter que desistir dele. Naquele momento o "parto perfeito" era tudo o que eu mais queria.

E enfim às 16h58 meu bebezinho veio ao mundo, por meio de uma cirurgia. O sentimento que ternura que eu tive ao vê-lo foi enorme. Mas não apagou a tristeza que eu estava sentindo por não ter conseguido parir minha cria.
Não acho que isso tenha qualquer relação com o tamanho do amor que eu senti por meu bebê desde o começo - eram duas coisas independentes. Eu estava enormemente feliz pelo meu bebê, por ele ter nascido com saúde e de tê-lo finalmente nos meus braços. Mas estava enormemente triste pelo meu parto, por ele ter sido tão diferente do que eu desejava. Ainda fiquei de luto e chorei bastante por alguns dias (ou algumas semanas) pelo parto que eu não tive, e finalmente a tristeza passou.

E depois de alguns dias, aquele gostinho do "e se" foi dissipado. Eu ainda estava remoendo a decisão que tomamos, pensando que poderia ter tentado a indução e ter meu parto lindo e meu bebê saudável, mesmo naquela situação. Mas tanto a obstetra quanto a enfermeira que acompanharam meu parto me disseram que eu tinha realmente muito pouco líquido amniótico, e que ele estava com uma coloração verde bem escura. E que mesmo que houvesse sucesso na indução, no momento que a bolsa estourasse e elas vissem o estado do meu líquido, iríamos interromper o parto normal e correríamos para uma cesariana de emergência (o que seria muito mais "traumático" e longe do meu parto idealizado do que uma cesariana realizada com calma, como aconteceu). E ainda haveria o risco do neném aspirar mecônio e ter complicações.
Então, no final das contas, a nossa opção foi realmente a mais acertada, tanto para mim quanto para o Nícolas, e ao saber disso, fiquei aliviada e suspirei em paz.

Me sinto abençoada por ter sido assistida por uma equipe tão competente. Pela minha médica ter me aconselhado tão bem. Pelo meu marido ter me dado suporte e me ajudado a tomar a melhor decisão possível. Por ter tido acesso aos exames necessários e ao procedimento cirúrgico que garantiram a segurança do meu bebê. E principalmente por meu bebê ter nascido forte, saudável e perfeito. Sei que sou privilegiada, e a maioria das mulheres infelizmente não tem acesso a tudo que eu tive.

No fim, sinto que esse foi o primeiro ensinamento que Nícolas me deu: que nem tudo está sob meu controle, que as coisas podem sair diferente do idealizado, e que ainda assim está tudo bem. Essa foi a primeira de muitas vezes no exercício da minha maternidade que terei que aprender a respirar e deixar as coisas fluírem, e aceitar que seja como for.

E, no mais, o sonho do meu parto humanizado ainda não está, de todo, perdido. Quem sabe não vem outro neném por aí daqui a uns anos? ;)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Estimulem seus meninos a brincarem com bonecas



No último domingo comemoramos o dia dos pais. E a cada ano que a data se repete, vemos mais e mais discussões a respeito do papel do pai na vida da criança.
Afinal de contas, ser pai é somente doar material genético pra "fazer" um filho? As obrigações do pai se resumem a pagar pensão e levar pra passear um fim de semana sim e outro não? Ou então morar na mesma casa, mas deixar a maior parte do trabalho da criação nas mãos da mãe?
Felizmente cada vez mais homens e mulheres se conscientizam que o papel do pai vai além de "ajudar" a mãe. Pai é responsável, tanto quanto a mãe, pela criação dos filhos, e como tal deve assumir de forma igualitária todas as responsabilidades que a criação de um ser-humano traz.
Ser mãe ainda é muito difícil, e ser pai ainda é muito glamourizado (enquanto a mãe precisa fazer um esforço sobre-humano para ser considerada "razoável", qualquer mínimo esforço do pai é visto como um ato heróico). Mas isso está mudando, e acredito que a uma velocidade relativamente rápida! Ótima notícia para todos!

Mas como pano de fundo dessa transformação, existe algo que muitas vezes as pessoas não fazem conexão: meninos brincando com bonecas. Ainda existem (muitas) pessoas que dizem que é um absurdo meninos brincando de bonecas, que isso é coisa de menina, que vai atrapalhar o desenvolvimento da "masculinidade" do garoto, e várias outras baboseiras preconceituosas e sexistas.
Oras, crianças aprendem sobre o mundo brincando. Não à toa Maria Montessori chamou o brincar de "trabalho da criança". Quando uma menina nina uma boneca, dá comidinha e cuida dela, está simulando as atividades que possivelmente exercerá na vida adulta, caso se torne mãe. E, pela mesma lógica, quando um menino nina uma boneca, dá comidinha e cuida dela, está simulando as atividades que possivelmente exercerá na vida adulta, caso se torne pai. Nada mais simples e lógico que isso.

Não faz sentido proibir um menino de cuidar de um bebê (boneca), porque isso é "coisa de menina", e depois esperar que esse mesmo menino, quando adulto, entenda que cuidar de um bebê (seu filho)  não é tarefa exclusiva de mulher. São coisas antagônicas.
Por isso, se eu pudesse dar um conselho para os pais, tios, avós de meninos, certamente seria: Presenteie seus filhos, sobrinhos e netos com uma boneca. Você o estará ajudando a entender que cuidar do bebê também é um "trabalho de homem", e o estará ajudando a se tornar um PAI de verdade.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Gravidez e vaidade


Nunca fui muito vaidosa. Desde pequena nunca me interessei muito por maquiagens, roupas, sapatos e tudo que pertence a esse universo. Não quer dizer que eu não queira me sentir bonita, mas na verdade ‘me sentir bonita’ não é algo que realmente faça uma diferença grande na minha vida, então não costumo fazer grandes esforços nesse sentido. Durante algum tempo até tentei me forçar a manter as unhas feitas e a passar pelo menos um ‘batonzinho leve’ quando fosse sair de casa, mas ou eu esquecia, ou na hora que lembrava dava uma preguiça e eu pensava “ah, depois eu faço” e acabava não fazendo. Passado algum tempo percebi que eu estava criando uma obrigação pra mim mesma que mais me incomodava do que me trazia algum benefício, e finalmente me desobriguei disso.
Depois que conheci o feminismo, isso passou a fazer ainda mais sentido pra mim. Não acho de forma alguma errado que mulheres que realmente curtam esse universo se dediquem a se arrumar, maquiar e perfumar. Cada qual deve fazer o que lhe traz alegria. E a questão é exatamente essa: Dedicar um tempo excessivo a ficar bonita não é algo que me traz alegria. Prefiro gastar esse tempo fazendo outras coisas, nem que seja ficar deitada sem fazer nada. E não é porque sou mulher que sou obrigada a ser bonita (como a mídia e o mundo inteiro parecem querer nos fazer acreditar), então relaxei em relação a esse assunto. Me desfiz de todos os meus esmaltes, mantive poucas maquiagens (que uso somente quando estou com vontade, normalmente quando vou sair de noite para algum lugar especial), não me sinto mais obrigada a depilar minhas pernas e nem a manter meus cabelos lisos. E tô muito bem assim, obrigada.
Mas se tem algo que eu (ainda) me importo bastante é com relação aos benditos “quilinhos a mais”. Não sei se isso é algo realmente meu, de gostar de me manter em forma, imposição da mídia, ou um misto dos dois. Mas sei que fico realmente desconfortável quando me sinto mais 'cheinha' que o normal, e mesmo tentando descontruir essa obrigação interna de agradar visualmente ao mundo, me pego de tempos em tempos analisando meu corpo, e sempre penso que posso perder um pouquinho mais de gordurinha aqui ou ali... Mas também tento não criar uma neura em relação a essa desconstrução: se estar esbelta faz com que eu me sinta melhor, então não vejo nenhum pecado em tentar alcançar esse objetivo, desde que isso não interfira na minha saúde física ou psicológica.

Pois bem, no início da gravidez eu tive muitos enjôos. Não vomitava com frequência (somente algumas vezes), mas passava o dia todo com náuseas, e não tinha vontade de comer nada. Passei os primeiros meses a base de biscoito água e sal, tapioca recheada de tomate, maçãs e bananas. Só de pensar em qualquer outro tipo de comida meu estômago já revirava... E, claro, com uma dieta dessas e um bebê se desenvolvendo e sugando todos meus nutrientes e reservas de gorduras, comecei a emagrecer. E fiquei muito feliz por isso.
Depois, mesmo quando comecei a me alimentar melhor, minha barriga demorou bastante pra aparecer. Até o sexto mês eu precisava me esforçar pra perceber algum sinal de gravidez. E também estava gostando bastante disso. E imaginei (sabe-se lá porquê) que isso se manteria até o final da gravidez: barriga discreta, sem inchaços em nenhuma parte do corpo, sem aquele caminhar com as pernas abertas característico de gestantes... 
Mas assim que eu completei os 6 meses, tudo mudou de repente. Minha barriga começou a crescer em um ritmo impressionante, meu rosto inchou, meus braços também. Comecei a andar igual a um pinguim... E eu comecei a me achar muito, muito feia. Eu, que nunca tinha dado muita importância para aparência, comecei a ficar muito triste cada vez que me olhava no espelho. Não queria tirar nenhuma foto, e não estava curtindo esse momento de grávida.

E nesse momento pude ver como amigas são importantes, e como a união entre mulheres é poderosa. Conversei sobre isso com algumas amigas, e elas me fizeram tantos reforços positivos, falando como é lindo esse “momento grávida”, como grávidas têm essa aparência tão própria delas, como é um momento delicado e mágico na vida de uma mulher, que mudei totalmente minha percepção. Agora estou super feliz em estar visivelmente grávida. Estou amando minha barriga enorme, e fico admirando o tamanho no espelho. Estou me achando linda, mesmo com o rosto mais redondinho, e até a forma de andar não está mais me incomodando. Tirei várias fotos, e quero tirar mais, pra guardar de recordação desse momento tão único na minha vida. Estou curtindo demais estar grávida, e amando a sensação de cada movimento do bebê dentro de mim (até quando ele exagera e quase me machuca).

Esse post pode parecer meio melodramático, mas acho que esse é mais uma das características dessa fase da vida de uma mulher: qualquer pequena coisinha ganha um peso enorme, e o drama é inevitável. E agora até isso estou curtindo! 


E já que estou me sentindo linda, resolvi colocar algumas fotos pra mostrar... rsrsrs

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Como você vai se preparar sem saber o sexo do bebê? - ou - A ditadura do Azul e Rosa



Não sabemos o sexo do bebê que vamos ter. E não queremos saber até o momento em que ele(a) nascer. Quando contamos isso, algumas pessoas se assustam, e não conseguem entender como vamos preparar o enxoval e a casa para receber um bebê sem sabermos se é um menino ou uma menina. Como saber se a parede do quarto e as roupinhas devem ser azuis ou rosas?
Bem, a minha intenção em não saber o sexo do bebê é exatamente essa: fugir do padrão azul x rosa.

A sociedade que vivemos é extremamente sexista. Temos separação de feminino x masculino em diversas esferas: profissões, esportes, comportamentos, temperamentos, gostos, roupas...
E, enquanto feminista, não acredito que essas diferenças sejam algo natural, intrínseco ao ser humano, e sim construções sociais, impostas a todos nós desde o momento em que nascemos (ou mesmo antes disso): O enxoval da garotinha é todo rosa, com motivos delicados e graciosos, cheios de florzinhas, borboletas, fadas e princesas. O enxoval do garotão é todo azul, com motivos que exaltam a força e coragem, como esportes, dinossauros, astronautas, carros. E isso se estende ao longo de toda a vida, de forma a "moldar" a pessoa que somos para cabermos nesses padrões esperados.
Acredito que essa educação sexista cria barreiras que impedem que uma pessoa (seja homem ou mulher) desenvolva em sua plenitude seu potencial. Por isso pretendo criar de maneira menos sexista possível o(a) filho(a) que vou ter, evitando ao máximo limitar sua personalidade aos esteriótipos de gênero existentes.

E a primeira atitude nesse sentido é evitar que os objetos do bebê (roupas, brinquedos, fraldas, toalhas, etc...) sejam predominantemente azul ou rosa. Não que eu tenha algo contra essas cores... Na realidade, acho as duas lindas (e inclusive já comprei algumas peças pro bebê tanto de uma quanto de outra cor - mesmo sem saber o sexo!!). Mas também acho outras cores lindas, e não quero limitar o bebê que ainda nem nasceu a um padrão de cor que nem sei se será a sua preferida.
Quem disse que necessariamente uma menina gosta de rosa ou necessariamente um menino gosta de azul?


sábado, 21 de abril de 2018

Minimalismo, Veganismo, Feminismo


Não sou muito fã de rótulos. Acredito que por mais que alguém se identifique com uma causa, nunca (ou quase) irá seguir à perfeição todos os preceitos estabelecidos. E também, estamos todos sempre em constante evolução. A vida é uma escola, e vamos nos modificando e aperfeiçoando a cada dia. Nossas percepções, crenças e atitudes também se modificam ao longo do tempo.
De qualquer maneira, se eu fosse definir hoje quais "valores" que eu persigo, certamente minimalismo, feminismo e veganismo seriam três deles. Não necessariamente os únicos. E como falei antes, não defino a mim (e nem a ninguém) como uma pessoa 100% minimalista, feminista ou vegana. Não entendo alguns conceitos, discordo de certos pontos, e derrapo em algumas questões. Mas de maneira geral são movimentos/estilos de vida com os quais me identifico e tento aplicar ao meu dia a dia.

Cada um desses conceitos pode ser resumido como:
Minimalismo: um estilo de vida em que se busca viver com o mínimo possível de meios e recursos.
Veganismo: um estilo de vida que exclui, à medida do possível e do praticável, qualquer tipo de exploração de animais não-humanos.
Feminismo: movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

E apesar de serem movimentos separados e cada um ter seus próprios objetivos, entendo que se tocam e comunicam em certos pontos, e um funciona como complemento do outro.
Minimalismo e Veganismo: Se fundem no que diz respeito à questão ambiental. Enquanto o minimalismo prega o fim do consumo (e consequente fabricação) de itens desnecessários, o que pouparia recursos ambientais, o veganismo prega o bem-estar de todos os animais, o que certamente passa por preservar seus habitats naturais.
Veganismo e Feminismo: Se fundem no que diz respeito à igualdade de direitos. Enquanto o feminismo prega igualdade de direitos entre homens e mulheres, o veganismo expande esse entendimento a todas as espécies de animais.
Feminismo e Minimalismo: Se fundem no que diz respeito à quebra de padrões de consumo. Enquanto o feminismo questiona principalmente os padrões de consumo impostos às mulheres, vistas na nossa sociedade como "seres consumistas e fúteis que sempre querem mais um par de sapatos", o minimalismo questiona os padrões de consumo impostos a todos, homens e mulheres, em uma sociedade que associa posses com status social, sucesso e satisfação pessoal.

E por serem "valores" que eu acredito e persigo, certamente na minha experiência de maternidade irei tentar passá-los adiante.